Dois Anos de Governo, Uma Primeira Abordagem: O Cenário de Sua Formação
Tendo participado, em 2008, do processo eleitoral que levou à constituição da coligação Botucatu Merece Mais entre PSDB e PCdoB e que culminou com a eleição de João Cury e Caldas para a Prefeitura, quero externar considerações sobre alguns aspectos que julgo serem relevantes para a avaliação dos primeiros dois anos do Governo e das manifestações que têm vindo a público.
É preciso considerar, primeiramente, que a inusitada coligação local entre duas siglas que se encontram em campos opostos desde o início dos anos noventa, sobretudo no plano das políticas de estado e dos alinhamentos ideológicos, foi a solução possível diante do impasse que se lhes apresentou. Ou se uniam, ou não conseguiriam ter, com dignidade, a participação que almejavam e se prepararam para ter na política local. Esse foi o aspecto catalizador da união.
O PSDB, fragorosamente derrotado nas urnas após oito anos no poder, bombardeado por acusações e abalado nas bases, ressurgia do ostracismo renovado pela autocrítica, rejuvenescido e propositivo, pronto para se reapresentar à população com novos líderes e planos; o PCdoB, num momento de significativo protagonismo na política nacional, lançava-se ao desafio de assumir o comando de executivos municipais e maior presença nas câmaras de vereadores, tinha em Botucatu um grupo experimentado e bem avaliado pelas atuações de seus representantes na política local. Igualmente, preparara-se com nomes e planos para se manter na Câmara e ser governo.
Contudo, o quadro pintado era o seguinte: o PT, dono da situação e no final de um segundo mandato com uma avaliação popular bastante positiva, estava convencido de que a vitória dos seus candidatos estava assegurada; os partidos DEM e PR, recém saídos das eleições gerais com significativas votações locais de seus candidatos para a Câmara Federal e Assembleia Legislativa, uniram-se como oposição e mostravam-se, igualmente, convencidos da vitória. Sendo assim, não haveria mais espaço para nenhuma das demais siglas que pretendessem ter maior protagonismo e influência no desfecho eleitoral, como era o caso do PSDB, do PCdoB e do PV, para citar as principais naquela conjuntura. Impuseram-se projetos quase que exclusivamente pessoais que não comportariam possíveis compartilhamentos.
Diante desse quadro, tucanos e comunistas passaram a buscar entendimentos e construíram um plano de governo com as análises e propostas confluentes, compartilharam fragilidades, respeitaram direitos, dividiram deveres e puseram o resultado disso nas mãos de João e Caldas. Foi o suficiente para que as certezas dos blocos aglutinados pelo PT e DEM-PR se desmanchassem no ar diante dos botucatuenses e a proposta do novo bloco saísse vitoriosa, clamorosamente vitoriosa.
Dois anos se passaram! O Governo municipal é uma realidade em franco desenvolvimento, com novidades políticas e gerenciais surpreendentes. Para melhorar as possibilidades, o cenário geral foi renovado pelas últimas eleições, cujos resultados só fizeram reforçar o caminho trilhado por nós em Botucatu, como uma senda de pioneiros. Mais uma vez, as certezas indiscutíveis, a arrogância, a intransigência, a calúnia, a falsidade de propósitos, os vínculos inconfessáveis e a discriminação de toda natureza foram repudiados pelas urnas.
As condutas republicanas de respeito à diversidade política e aproveitamento dela pelo bem comum vão se tornando cada vez mais frequentes na cultura política brasileira, à semelhança do que praticamos aqui. Mas, disso me ocuparei noutra oportunidade. Diário da Serra, 04/01/2011
Luiz Roberto de Oliveira
Médico, escritor e compositor
Botucatu, 27 de dezembro de 2015