A reta final
02/10
A não ser que haja um fato de grande proporção, capaz de alterar de forma radical o quadro político da Paraíba nos próximos cinco dias, não vejo possibilidade de um segundo turno na eleição para governador do Estado.
As pesquisas indicam e a famosa voz rouca das ruas confirmam um favoritismo de José Maranhão (PMDB), na disputa pelo Governo da Paraíba, tendo como principal concorrente o ex-prefeito de João Pessoa, Ricardo Coutinho. Partindo para o interior do Estado, especialmente o brejo, Zona da Mata e Sertão, ai a coisa se complica ainda mais para as oposições.
O próprio Ricardo Coutinho sabe disso desde que resolveu concorrer ao Governo: para ter alguma chance de vitória, no mínimo teria que “sair de João Pessoa lotado” que, nas palavras dele, significa partir da Capital com os votos do mundo todo.
Coutinho cometeu muitos equívocos. Calculou muito mal; campeão de urnas em eleições passadas, quando chegou à Prefeitura de João Pessoa, sobretudo no segundo mandato, ele se convenceu de que era “o cara”, a bola-da-vez, e que ninguém o alcancaria mais em qualquer disputa para Governador da Paraíba.
Abandonou o barco que lhe levou à Prefeitura e aliou-se a adversários históricos que se contrapõem a tudo o que Ricardo dizia defender, como Cássio Cunha Lima (PSDB), que foi catapultado do mandato de governador do Estado, em fevereiro do ano passado, por decisão da Justiça; e como o senador Efraim Morais, uma das finas-flores do antigo Partido da Frente Liberal (PFL), que mudou para o nome de Democratas (DEM).
Ricardo não percebeu que esta poderia não ser a sua vez e não teria êxito, de maneira nenhuma, se achando o imbatível, brigando com aliados, expulsando correligionários do partido. Também não avaliou que ainda não tinha cacife suficiente para desafiar uma raposa política como o governador José Maranhão. Ainda mais tendo o seu adversário a máquina do Governo nas mãos.
Maranhão foi mais hábil: enquanto Ricardo sentava sobre uma autoconfiança sem limite e massageava o ego, Maranhão tratou de arregimentar apoios e votos no interior do Estado; amealhar apoios dos partidos políticos, especialmente do Partido dos Trabalhadores (PT) e minar as bases de Ricardo na sua própria casa, a Capital.
Feito isso, Maranhão partiu para uma campanha ostensiva dentro de João Pessoa e em Campina Grande, os dois maiores colégios eleitorais do Estado. O interior já estava garantido. Agora, era a vez de reduzir a diferença que Ricardo poderia construir a partir da Capital. Trabalhou de forma eficiente a ponto de o Ibope constatar que Zé ganharia até em João Pessoa.
Faltando cinco dias para a eleição, a essa altura do campeonato o maior avanço que Ricardo pode conseguir e levar a eleição para o segundo turno. Ele trabalha feito um louco para conseguir essa meta. Ora, se Ricardo apenas sonhando com um segundo turno permite que os “ricardistas” finjam que ele vai se eleger, imagine o que dirão os maranhistas que, segundo a unanimidade das pesquisas, está com uma vantagem tranqüila e indiscutível.
E a pesquisa, hein?
Os números aferidos pela pesquisa do instituto Consult acerca da preferência dos eleitores por candidatos ao Governo do Estado, na Paraíba, sugerem motivos para pouca comemoração da parte do governador José Maranhão (PMDB) e aliados. Estar na frente é sempre bom e motivo de regozijo, claro. Neste caso, porém, a vantagem é irrelevante, sobretudo levando-se em conta a distância que nos separa do pleito e as condições de cada um dos candidatos.
José Maranhão é um político tarimbado, com 50 anos de estrada, em pleno exercício do terceiro mandato de governador; já foi senador, deputado federal e estadual. Tem mais estrada e é muito mais conhecido no Estado do que o prefeito de João Pessoa, Ricardo Coutinho (PSB). E mais: Maranhão lidera um esquema azeitado, sem maiores problemas de divergências internas e coerente com a sua história. Sobram partidos e candidatos querendo compor a sua chapa.
Ainda não muito conhecido na Paraíba, o Ricardo Coutinho, Imperador das Acácias, transita numa área conturbada. Desmantelou seu grupo político de origem – perdeu dois deputados federais e três estaduais – e carrega a pecha de “traidor dos segmentos da esquerda” por haver se aliado a adversários históricos, dando uma tremenda guinada para a direita em busca de apoio de um grupo que tem como principal líder o ex-governador cassado Cássio Cunha Lima (PSDB), tucano de primeira hora. Além disso, Ricardo carrega um contrapeso que puxa muito pra baixo o seu lado da balança: o senador Efraim Morais (DEM), um parlamentar que tem surfado com notória desenvoltura nas ondas das “maracutaias” do Congresso Nacional, segundo o noticiário e, quase sempre, enrubesce a cara da Paraíba.
O desempenho do senador Cícero Lucena (PSDB) na pesquisa já era esperado. Afinal, o projeto de Cícero, que poderia ser próspero se contasse com o apoio integral do seu partido e do Grupo Cunha Lima, configura-se numa aventura aparentemente inglória, em razão da sabotagem planejada pelo seu fogo amigo Cássio Cunha Lima, em nome de quem, num passado não muito distante, o próprio Cícero – a época um nome em plena ascensão na política – abdicou de disputar o Governo para que o jovem tucano fosse governador do Estado.
Os números emanados da pesquisa, portanto, sugerem que o governador José Maranhão ponha as barbas de molho; não confie demasiadamente no favoritismo sugerido pela comemoração dos seus frenéticos papagaios-de-pirata; que ajuste suas ações de governo para melhor atender à população, e não caia na armadilha das provocações para que trilhe pelo caminho do insulto, das provocações e do achincalhe. Como bem disse o diretor do Consult, Paulo de Tarso, o eleitor espera soluções para seus problemas. Pequenos problemas que, somados, se tornem enormes. E não basta promessa: tem que apresentar projetos viáveis para, pelo menos, amenizar o sofrimento dos paraibanos.
As declarações do diretor do Consult podem servir como alerta ao governador Maranhão para o fato de que pode não ser uma boa enfrentar uma acirrada disputa com o caos em setores essenciais como a Saúde e a Educação. Um governo que se lança a uma disputa num pleito de caráter plebiscitário, não pode permitir que alunos da rede oficial de ensino comam merenda com gorgulho, como acaba de constatar o Ministério Público, e que o pátio de suas escolas sejam transformados em chiqueiros, como acontece na Escola Oswaldo Pessoa, em plena Capital do Estado. Isto, sem falar no caos absoluto que se verifica nos hospitais e nas escolas públicas do interior do Estado.
O governador não pode se achar que só existe eleitor na rota da Caravana da Reconstrução. Estes são a minoria. A maioria está por onde a caravana não passou. Está em Serraria (apenas para citar um exemplo), onde a juventude esta P da vida com o Governo pelo descaso absoluta na Escola Estadual Antônio Bento, que o próprio José Maranhão construiu.
O governador Maranhão tem que estar atento para o fato de que a juventude não está pra brincadeira, vive – como ela agora adora dizer – “indignada com os políticos”. E as escolhas públicas estão entulhadas de jovens que vão votar pela primeira vez, além de outros que sofrem na pela o descaso na Educação. Na saúde, a coisa se complica: ali estão todos: estudantes, analfabetos, pretos, brancos, ricos e pobres. O governador precisa sair do Hospital de Trauma e visitar os hospitais do interior do Estado.
De qualquer forma, os números possibilitam que Maranhão dê uma respirada e ganhe tempo suficiente para traçar as estratégias para as próximas etapas da pré-campanha. Quanto ao prefeito Ricardo Coutinho, os números sugerem que ele ainda tem chance, evidentemente. Em se tratando de um político que pensa que é o centro do universo, porém, ele não deve ter dormido desde que a pesquisa foi publicada. A não ser que ele tenha alguma na gaveta indicando o contrário do que verificou o Consult. E se tiver, terá que publicar, senão estará chancelando os números da Consult, que dão vantagem ao seu até recentemente aliado político, José Targino Maranhão.




