Carta aberta à Senhora Presidenta da República

À
Senhora
Dilma Rousseff
Presidenta da República
PALÁCIO DO PLANALTO
Brasília – DF

Excelentíssima Senhora Presidenta Dilma Roussef,

Face à presente campanha da operadora Sky nos órgãos de comunicação, que acreditamos orquestrada por agentes do mercado televisivo contra a implantação da Lei 12.485/11, que, a exemplo de legislações de outros países, determina a obrigatoriedade de exibição de conteúdo nacional de produção independente na televisão a cabo, nós, associações profissionais representativas da produção audiovisual independente do Brasil, nos manifestamos perante Vossa Excelência no sentido dos seguintes pontos que cremos ser de natureza relevante na apreciação da questão:

A televisão é o mais complexo e importante veículo de comunicação social. Produz cultura, veicula cultura, é em si cultura. Por meio da programação do que exibimos em nossos aparelhos de TV, domésticos e coletivos, divulgamos nossa realidade, costumes, língua, artes, política, história. A ela deve-se a consolidação e o exercício da cidadania. Por essas razões é bem de interesse público, como tal reconhecido em todo o mundo, e o direito a explorá-la objeto de regulação do Estado moderno.

2. No Brasil, esta função regulatória vem sendo exercida pela ANATEL e agora, com a Lei 12.485/11, compartida com a ANCINE. Com esta lei, não somente passam a estar reguladas as plataformas de emissão de programas e de sinais, como também a origem dos conteúdos veiculados na TV por assinatura, garantindo, assim, ao cidadão o acesso à produção de obras brasileiras realizadas fora dos estúdios das emissoras de televisão.

3. Os princípios da regulamentação norte-americana dos anos 50 do século passado, que propiciaram o fortalecimento de Hollywood, finalmente passam a ser adotados no Brasil. Com isto, cresce nossa indústria do audiovisual e se proporciona ao cidadão o acesso a uma maior diversidade de obras brasileiras. Mais emprego, mais desenvolvimento, mais know-how, mais exportação são gerados pela presença de mais cultura brasileira nas telas do país e do mundo.

4. O que os adversários da Lei 12.485/11 temem é a mudança. É saber que dentro de alguns anos o país pode passar de consumidor a produtor e exportador. É não aceitar que a produção audiovisual brasileira possa participar efetivamente do mercado mundial e tampouco de seu próprio mercado. Algo semelhante ao que ocorreu no início da indústria petrolífera no Brasil

5. A campanha contra a implantação desta lei tem origem neste comodismo, que atende a interesses que não condizem com um país cuja soberania é hoje objeto de admiração, respeito e reconhecimento em todo o mundo.

6. Capitaneada pela operadora Sky, esta campanha tem como objetivo apenas beneficiar empresas exclusivamente voltadas para a exploração de nosso crescente mercado interno, sem nada oferecer em troca. Por meio de ações judiciais e milionárias campanhas publicitárias assediam com cínicos sofismas a opinião pública buscando influenciá-la contra o direito soberano da nação de regulamentar suas concessões públicas.

7. Buscam confundir “regulamentação” com “censura” e “imposição autocrática”. Buscam desqualificar uma lei, formulada e debatida por cinco anos no Congresso Nacional, que passou por todas as instâncias processuais e foros de discussão democráticos. Buscam identificá-la como fruto do autoritarismo e não como resultado de um grande entendimento nacional. Buscam desmoralizar as agências reguladoras atacando-lhes as atribuições legais e dos que ali estão para cumpri-las.

8. Utilizam-se da concessão que lhes foi atribuída pelo Estado incitando a população contra o Legislativo e contra o Executivo. Trata-se, em suma, de um comportamento incompatível com empresas que atuam num país orientado pelos princípios da democracia, do respeito às instituições, da livre iniciativa e do cumprimento às leis.

9. A regulamentação da Lei 12.485/11 está aberta a todos. Sua implantação aponta novas e promissoras portas e oportunidades de negócios. Deve ser recebida pela sociedade, pelos profissionais e pelas empresas como uma grande oportunidade de participar de uma atividade de crescente importância industrial e cultural. À altura do que queremos para o país.

É assim, Senhora Presidente, que nos dirigimos a Vossa Excelência, cumprimentando-a pelos avanços já obtidos na aprovação e na sanção da Lei 12.485/11, mas, igualmente, reiterando nosso apelo para que se dê continuidade ao apoio do Poder Executivo para a conclusão da regulamentação e implantação destes instrumentos legais de importância histórica para o país.

Respeitosamente,

ABRE – Associação Brasileira dos Realizadores de Filmes de Longa Metragem
Renato Barbieri
renato@videografia.com.br

ABRACI – Associação Brasileira de Cineastas
Rodolfo Brandão
dodo@elipsetvcine.com.br

APACI – Associação Paulista de Cineastas
Rubens Rewald
rrewald@gmail.com

APROCINE – Associação dos Produtores e Realizadores de Filmes de Longa Metragem de Brasília
Manfredo Caldas
folkino@terra.com.br

APCNN – Associação dos Produtores e Cineastas do Norte e Nordeste
Wolney Oliveira
wolney45@terra.com.br

APCBA – Associação de Produtores e Cineastas da Bahia
Jorge Alfredo Guimarães
jorgealfredo@globo.com

APROECE – Associação de Cineastas e Produtores do Ceará
Moisés Pedro Magalhães de Lima
eclipsefilmes@yahoo.com.br

SIAV RS – Sindicato da Industria Audiovisual do Rio Grande do Sul
Henrique de Freitas Lima
hflima@terra.com.br

SANTACINE – Sindicato da Industria do Audiovisual de Santa Catarina
Bhig Villas B?as
bhig@setcom.art.br

CINEMA BRASIL – Instituto Cultural Cinema Brasil
Marcos Manhães Marins
diretoria@cinemabrasil.org.br

CBC / Congresso Brasileiro de Cinema
João Baptista Pimentel Neto
cbc.presidente@cbcinema.org.br

Coalização da Diversidade Cultural do Brasil
Geraldo Moraes
filmesom@uol.com.br

ABD – Associação Brasileira de Documentaristas
APTC ABD – RS – Alfredo Barros
ABD – SP – Celso Gonçalves
ABD – GO – Carlos Cipriano Gomes Junior
ABD – PI – Kleyton Marinho
ABD – DF – André Carvalheira
ABD – MG – Marco Aurélio
ABD – PR – Guto Pasko
ABD – RJ – Clementino Junior
ABD – ES – Alexandre Serafini

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Pela descriminalização da infância e da juventude na Cidade das Acácia


Na última semana de maio a cidade de São Luiz (MA) sediou o primeiro encontro regional para integração SUAS* /SINASE*. O evento tratou da municipalização das medidas sócio-educativas em meio aberto. Uma das palestrantes resgatou da mitologia um exemplo de punição educativa. O deus Apolo, símbolo da beleza, da juventude e da luz, uma das doze divindades do Olimpo, fruto da união de Zeus com Leto, amparou os signos da esperança propositiva no discurso da palestrante. Apolo, entre outros atos não menos desabonadores matou a flechadas um bando de Cicoples (personagens com um olho único, na testa) enviados por Zeus. Como punição, foi expulso do Olimpo e veio exilado para a Terra. Cumpriu sua pena trabalhando como pastor de rebanhos. O aprendizado da mortalidade transformou radicalmente o jovem Apolo. Os ensinamentos da punição educativa mostraram novos caminhos e Apolo descobriu que poderia determinar os dias, as noites e as estações do ano. Passou a ser conhecido, então, como o Senhor das Colheitas.

Apesar da forte simbologia mitológica aqui resumida, nossas reflexões partirão de outro tipo de Olimpo. Um lugar onde Zeus foi esquecido e o modo de organização das divindades vem gerando Apolos subnutridos, crescendo nos chamados aglomerados subnormais. Muito especialmente em cidades onde a riqueza de uns poucos ilumina avenidas e constrói suntuosidades arquitetônicas. Na bela, moderna e histórica São Luiz do Maranhão, onde a Governadora Roseana Sarney anunciou o investimento de vinte milhões de reais para os festejos juninos, os palafitas ainda cortam de sangue o olhar indignado dos que lutam pela partilha das colheitas de Apolo. Enquanto a modernidade ergue seus monumentos, pequenos deuses e deusas saem para as ruas das cidades brasileiras buscando conquistar o direito de viver mais um dia. Seja limpando os fumês de um Vitara no semáforo, suplicando caridade pelas esquinas, ou praticando os pequenos (e imensos) delitos que sobraram como opção para uma iniciativa autônoma de sobrevivência no Olimpo capitalista.

No momento que se inicia a municipalização das medidas sócio-educativas em meio aberto na cidade de João Pessoa, as reflexões que busco resumir neste breve artigo apontam para o fato de estarmos implantando uma política pública numa sociedade de desigualdades criminosas. Em tempos de disputa eleitoral – onde os escrúpulos geralmente escasseiam – jamais poderemos confundir ou minimizar as nossas responsabilidades que devem ser, obviamente, repartidas. A municipalização dos serviços, pois, não pode ser impunemente tratada como uma desova de obrigações. Os três níveis de governo e a sociedade têm atribuições intransferíveis na sua condução. Não existem modelos ou cartilhas. No máximo, alguns poucos exemplos dignos de atenção para uma imprescindível troca de saberes. As experiências bem sucedidas nos revelam a necessária delicadeza de estabelecermos um debate sincero acerca da parte que nos cabe neste latifúndio. No caso da Paraíba (e de outros Estados) convivemos com a mais soberba alienação do Governo Estadual quanto as suas atribuições tão claramente estabelecidas na Lei Orgânica da Assistência Social.

Não apenas em relação às medidas, mas quanto à Política Nacional de Assistência Social como um todo. Da mesma forma, convivemos com uma profunda conivência do Ministério Público Estadual quanto a este fato que é, sem qualquer dúvida, determinante para o sucesso ou fracasso das políticas públicas.

O fator cultural também deve ser compreendido como determinante até mesmo para a transformação do comportamento de determinados agentes da área social. A primeira experiência brasileira de “acolhimento” data de 1551, quando os jesuítas fundaram a primeira casa de recolhimento de crianças. O objetivo era “afastar as crianças negras e índias da má influência dos pais”. Portanto, partimos de uma herança nefasta que evoluiu por caminhos nada animadores e que desaguaram na estupidez do modelo desumano da FEBEM. Uma radical mudança de paradigma é, portanto, o que está em pauta. Não podemos esquecer que os jovens infratores da classe média e da burguesia passam ao largo das políticas públicas aqui tratadas. Acabam absorvidos pela imperativa hipocrisia social e, no mais das vezes – celebrando a impunidade -, acabam retornando à cena na idade adulta, em relevantes cargos públicos. Portanto, que fique claro: estamos implantando uma política pública que traz como cenário um profundo e covarde preconceito de classe. As medidas sócio-educativas em meio aberto estabelecidas pelo SUAS/SINASE não podem ter sua aplicação dissociada de uma reflexão acerca da profunda desigualdade social.

Não podemos incorrer no erro de pensar essas medidas tão somente na perspectiva de contenção dos ímpetos e conflitos dos meninos e meninas da periferia, sem qualquer reflexão acerca da violência à qual são submetidos desde quando nascem, desprotegidos de tudo. Portanto, não há como não tratarmos do assunto de forma articulada com as demais políticas públicas que tem na justiça o princípio fundamental. Isso, não se espantem, é fundamento ideológico neste início de milênio. É necessário que este aspecto também seja levado em consideração pelos demais componentes da rede de proteção deste imenso trapézio que cerca o interesse público.
Os processos de reeducação, portanto, não irão surtir efeito se não oferecermos perspectivas, se não nos pautarmos pela universalização dos direitos de cidadania. Seja no âmbito das políticas habitacionais, das políticas de saúde, de cultura e de educação mais especificamente. De cultura? Sim, porque estamos tratando aqui, fundamentalmente, da necessária mudança de mentalidades. Este é o papel da transversalidade de uma política pública de cultura transformadora. Comecemos pela capacidade de reflexão dos profissionais da área, pelo comprometimento dos gestores e dos demais agentes públicos, pelo envolvimento dos movimentos no controle social e pela responsabilização das grandes corporações, passando pela mudança de hábito da mídia, com sua racionalidade apontada para o lucro imediato das imagens e das palavras. Afora isso, sobram os riscos do principal contraponto que é a zona de sombra do fascismo propondo a redução da maioridade penal como solução matemágica.

A história nos mostra com muitas evidências que os confinamentos já experimentados não passam de uma espécie de industrialização em massa do crime. Ou seja: a sociedade dos porcos ainda se arriscará continuar chafurdando na lama para camuflar suas responsabilidades. Estranho que esse debate ainda esteja vivo num tempo em que o crime organizado transformou os presídios em privilegiados núcleos concentrados de operação. Esperamos um pouco mais do mundo. Por isso seguimos em frente, referenciados no que ainda virá, mas que possui enraizamentos inconfundíveis na luta e no pensamento de quem pretende ir muito além dos códigos abertos do conhecimento e de comemorações carnavalizadas da tragédia social que vivemos.

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As representações sociais da decadência e a resistência cultural na cidade das Acácias

12/05

“É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte.” (Caetano Veloso)

Em outros momentos históricos talvez provocasse maior frenesi a proposta da vereadora Elisa Virgínia de submeter as ações de arte pública na cidade de João Pessoa à Câmara de Vereadores, transformando-a em departamento de censura. Cazuza até que tinha razão quando berrava “o tempo não pára.” Mas, parece que parou na Idade Média para alguns portadores de profecias deformadas, denunciados já na antiguidade pelo mestre Jesus Cristo. O fato me trouxe à memória alguns versos do famoso artista popular nordestino, o Cego Aderaldo: “Quem nasceu cego da vista/ E dela não se lucrou/ Não sente tanto ser cego/ Como quem viu e cegou.” A sabedoria milenar do cantador nos mostra a necessidade de vermos as coisas como elas realmente são.

Sem demérito algum aos que foram eleitos para tratar dos assuntos gerais da cidade, me pergunto se haveria condição real para um mergulho no conhecimento sobre arte moderna, arte contemporânea, arte pública, história da arte… E assim, minimamente informados, os vereadores pudessem dedicar um tempo precioso ao exercício da análise estética. (Aliás, um trabalho nada legislativo.) Logicamente que não! Todavia, o que ainda preocupa é o fato de uma pessoa com mentalidade tão desvirtuada, conquistar uma relevante representação social.

É preocupante sabermos que o povo pessoense é representado, também, por esse patamar de incivilidade. A provocação que deixo aqui é a seguinte: o que leva um cidadão ou uma cidadã a votar em alguém que pensa de forma tão desfigurada?

Por outro lado, tenho observado com indisfarçada alegria a reação dos artistas e dos consumidores de cultura da cidade. Reações justas e conseqüentes. É tranqüilizador quando se percebe que a sociedade está atenta aos desmandos. Na verdade, a vereadora ultrapassou todas as barreiras do bom senso e está recebendo o troco. Praticou um ato tendencioso tentando ludibriar setores da sociedade no jogo político conservador. Misturar política com religião tem sido o mais vergonhoso ato de desrespeito à diversidade das crenças. Afinal, o Estado é laico. Mesmo que em épocas eleitorais, muitos pais e mães de santo, padres, padrinhos e pastores caminhem juntos no gingado dos interesses pela hegemonia da sociedade. A vereadora, neste sentido, cumpre integralmente os ritos da decadência.

Não sabe que os evangélicos já não se comportam como um rebanho. Como todo o povo, cada vez exercitam melhor a cidadania e repudiam o oportunismo patológico de algumas representações que insistem em tratar os interesses coletivos de forma tão obtusa. Concluo, portanto, que a vereadora Elisa Virgínia bebeu na taça do ridículo e dançou até cair.

Lembro que há poucos anos, quando a Prefeitura colocou a internacionalmente reconhecida obra do paraibano Jackson Ribeiro, o Porteiro do Inferno, no giradouro da Universidade Federal da Paraíba, também ocorreram tentativas esdrúxulas para extrair dividendos políticos de uma polêmica vazia.

Na época, representando a Fundação Cultural de João Pessoa, fui obrigado a intervir num programa de rádio para explicar que a uma obra abstrata, como o Porteiro, não poderia jamais ser dada qualquer conotação religiosa. A comunidade artística também reagiu e, felizmente, a polêmica não se sustentou. O que assusta, entretanto, é a condição a que foram alçadas certas pessoas em termos de representatividade social e política. O que preocupa é que uma pessoa como a vereadora Elisa tem a responsabilidade de analisar outras matérias de extremo interesse da cidade. Portanto, estamos ainda a mercê.

Em derradeira análise, observamos que numa sociedade que transforma as piores tragédias em espetáculos midiáticos é normal o ridículo virar notícia. Ainda chegará o dia que uma matéria assim não passará nos critérios editoriais de qualquer jornal de bairro ou blog sensacionalista. Este dia, deverá coincidir com a cobertura da dignidade das pessoas que vivem nas comunidades periféricas. Por exemplo, Mandacaru tem aparecido na mídia apenas como um bairro violento. Esquecem que se trata de um dos principais pólos de cultura popular da região.

A notícia, geralmente, estabelece hierarquias de importância na construção das mentalidades. A submissão é uma marca da pobreza. As mentiras sociais, colocadas diariamente pelos (de)formadores de opinião como a vereadora, no entanto, já não encontram o eco que desejariam. Ainda bem. A cidade está mudando. O país está mudando. O mundo está mudando. Tudo porque estamos aprendendo a reagir com veemência contra os desacordos de uma nova ordem global.

O mundo pode sim ser diferente. Depende sempre das nossas reações. Mentalidades oportunistas como a da vereadora pessoense, ainda bem, já causam mais riso que revolta. A comunidade artística, como se diz, deu uma merecida peia nos signos da ignorância travestida de moral. Como sempre diz Pedro Osmar, “arte ainda que tarde”. Tipo assim: estou gostando de ver a comunidade atenta e forte.

As lógicas conflitantes para a disputa de 2010

04/01

O que está posto na conjuntura política paraibana, em termos da disputa eleitoral de 2010, se torna cada dia mais preocupante. Nitidamente, temos concepções diametralmente opostas de mundo e de governo em confronto, independentemente de quantas candidaturas já estejam colocadas. O que nos parece grave é que a lógica das articulações institucionais vem sofrendo agressões permanentes. Nem precisamos detalhar, porque os fatos estão no cotidiano da mídia, em alguns veículos, com níveis lamentáveis de manipulação. Na verdade, o que está colocado é que temos de um lado, os que comungam com o neo-coronelismo e de outro os que constroem a possibilidade de mudar a história.

Os fatos não negam o nosso raciocínio. Não precisamos ir além das manchetes dos jornais para nos depararmos com as aberrações. Dentre tudo, uma questão está muito bem entendida pelos paraibanos. E não apenas pelos mais informados. Até mesmo o lendário pescador Chico Buchudo, da praia da Penha, sabe exatamente o que está acontecendo. A clareza da disputa começou logo após o governador Maranhão assumir o cargo. Sem cerimônia, tentou interferir de forma escandalosa no PSB, partido do prefeito Ricardo Coutinho. A bola fora do governador deixou alguns incautos pensando que aquele episódio da nomeação de um deputado do PSB para o governo do Estado, sem a anuência do partido, seria motivo de reflexão dos maranhistas. Ledo e Ivo engano. Era só o começo de uma purgação que estava estabelecendo uma lógica perversa para a disputa do próximo ano.

Muitos episódios se somaram a esse, posteriormente. Alguns silenciosos, alguns mais ruidosos. Nos bastidores, sentimos na pele o arrefecimento das relações políticas até então aliadas. As coisas, parece, estavam rebentando feito a barragem de Camará. Testemunhamos a mudança de ânimo de alguns setores, mais progressistas do governo do Estado que, não temos dúvidas, cada dia vão afirmando as suas certezas de que as possibilidades de avanço estão calcadas no modo de governar do Partido Socialista Brasileiro. O que era portas abertas, devido às relações construídas nos movimentos sociais, passou a ser constrangimento. Seguiram-se a isso, algumas cooptações de quadros do Governo Municipal. Cada vez mais a investida se configurava para um confronto. Logicamente, seria legítimo se não tivessem sendo usadas para esse confronto, as instituições públicas e mesmo os agentes públicos. Assim, somente ficou de fora desse “despacho”, o interesse público.

Dia a dia, a população do Estado da Paraíba foi assistindo uma tentativa de supremacia, pela força, de um político que sempre se afirmou pelo convencimento opressivo, pelo conservadorismo e pela intransigência. Estava, portanto, cada vez mais evidente o posicionamento filosófico e político do setor situacionista na disputa de 2010. Até mesmo o trânsito da capital virou prioridade do Governo do Estado, como se o Estado não tivesse outros problemas muito mais graves em áreas topograficamente miseráveis. Uma contradição, porque as questões relativas ao trânsito são da competência dos municípios e refletem, de certa forma, o crescimento da economia. Não é este o problema das regiões mais necessitadas do Estado da Paraíba. O povo sabe disso e por isso a história do viaduto não colou. O Governo do Estado não conseguiu emplacar na opinião pública, a necessidade de fincar um “minhocão” entre a Rui Carneiro e a Beira Rio. O discurso do impacto positivo da obra, nem mesmo nos mais fanáticos maranhistas fez efeito. E tudo foi tomando forma de traque junto aos fogos do réveillon.

Por falar em réveillon, também numa lógica de uso indevido do dinheiro público, mais uma vez teremos a triste marca maranhista tomando corpo nas areias de Cabo Branco. Não importa que os representantes do governo, capitaneados pela Deputada Nadja Palitot, tenham confirmado a pouca disposição, por exemplo, para contribuir com uma solução para o drama das famílias da antiga Vila Gravatá (pejorativamente chamada de cracolândia). A omissão do Estado é proporcional ao silêncio oportunista da deputada Nadja. O dinheiro que faltou para realizar um possível convênio com a Prefeitura, para resolver definitivamente os problemas daquela comunidade, sobraram para a realização de uma festa que promete estabelecer o caos no trânsito, nas ações de segurança, etc. Tudo terá que ser feito duplamente, pelo mesmo contingente de servidores. Antes disso, em outubro, também sobraram recursos para realizar um evento para as crianças, apenas para competir com o já tradicional Dia de Brincar, promovido pela Prefeitura com enorme sucesso. A despeito disso, nenhuma casa foi construída nesse período.

Mas, isso é detalhe. Ou o governador pensa que é.

Agora chegamos ao cúmulo da estupidez. O fechamento da Estação Ciência foi um ato digno de um DOI-CODI Florestal. No entanto, menos de 24 horas depois se revelava mais uma trapalhada de um governador tão ranzinza que já começa a ser chamado de “Seu Madruga”. O Estação Ciência Cultura e Artes, ou Estação Cabo Branco, desde a sua inauguração vem mantendo uma programação permanente, com uma estrondosa visitação de turistas e paraibanos. Um sucesso que, naturalmente, desagrada os adversários políticos do prefeito Ricardo Coutinho. Desta vez, mais que o uso partidário das instituições públicas, ficou selado o clamor desesperado da decadência política. A estupidez chega ao cúmulo de desconhecer completamente a importância de termos na cidade um monumento de um dos arquitetos mais importante do planeta. Ainda que pudesse ter seus portões lacrados, o Estação Ciência continuaria sendo uma atração e as máquinas fotográficas registrariam a beleza da obra, conjugada com a vergonha de uma injustificada arbitrariedade. Os lacres neste caso, representariam a inacessibilidade ao futuro.

Estamos, pois, diante de dois caminhos muito claros para o Estado da Paraíba. De um lado, a ação coronelista que acha que tudo pode e pensa que o Estado é uma propriedade voltada para seus interesses. De outro lado, a convicção de uma inevitável “mudança de hábito” na tradição política do Estado. Pelo jeito, o Governador entende que seus métodos funcionam no interior (temos profundas dúvidas sobre isso) e que pisotear as relações institucionais vai lhe render votos. Os formadores de opinião estão de orelha em pé e o povo cansou da vida de gado.

Certamente que o Governador Maranhão e seu fiel exército de lagartixas, não vão parar por aí. Começo a entender que a derrota em 2010 vai fazer muito bem para este senhor que, ao contrário de sábios como Lao-Tsé, nasceu velho e vai morrer sem compreender que o mundo mudou bastante da década de 30 para cá. A vontade de mudança do povo paraibano está no clamor das ruas, nas grandes, médias e pequenas cidades. Entretanto, apesar de termos as coisas tão claramente postas, não nos enganemos, outros ataques semelhantes ou até piores, deverão acontecer. O que duvidamos é que o mais inocente dos paraibanos ainda não saiba o que está acontecendo. O que duvidamos é que os setores mais antenados do Governo do Estado, já não estejam se sentido desconfortáveis em razão das suas próprias histórias de vida e militância. Agora é aguardar o próximo “barulho” institucional. Afinal, esta é a lógica imposta para a disputa, pelo governador José Maranhão. Um homem que se alia a setores progressistas por pura conveniência, mas não se permite avançar. Os fatos não negam.

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A poesia como ponto de partida

08/10

Nos últimos anos tenho acompanhado razoavelmente o debate acerca da importância da poesia, enquanto gênero literário. Em 2005 recebi uma provocação do Festival Recifense de Literatura. Fui “intimado” pelo poeta Pedro Américo, para falar sobre poesia e mercado. Na época, um período bastante atribulado da minha vida profissional, somente pude dar atenção ao assunto uns cinco dias antes da palestra. Fiquei um tanto atônito porque não existiam referências, praticamente. Encontrei apenas um texto de Geir Campos, de décadas e décadas passadas. Pois não é que em “Carta aos Livreiros”, o poeta relatava exatamente o mesmo drama vivido pelos poetas do século XXI, em relação mercado editorial? Acabei escrevendo um texto para orientar a minha palestra, que acabei publicando na revista Discutindo Literatura e em alguns sites.

Existe aí uma questão que tem me instigado bastante. Apesar de ser um gênero considerado não comercial, os fatos nos mostram que a poesia é um dos gêneros mais lidos. Do ponto de vista do mercado editorial, os poetas desafiam os best Sellers através do tempo. Por exemplo, ninguém lembra quem eram os Best Sellers da época em que Baudelaire circulava pelas ruas de Paris. No entanto, o poeta francês continua vendendo nas livrarias do mundo inteiro. A coleção “Melhores Poemas”, da Global Editora, apresenta índices invejáveis de vendas. Somente o poeta Mário Quintana vendeu bem mais de 100 mil exemplares. Na margem do mercado, os cordelistas da Paraíba, num dos últimos festejos juninos da capital, chegaram a vender 800 exemplares em único final de semana.

A recente pesquisa, já citada por mim no blog Pele Sem Pele algumas vezes, “Retratos da leitura no Brasil”, editada pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, traz dados atualíssimos (de 2007) e impressionantes. A pesquisa foi coordenada por Galeno Amorim, ex-secretário de cultura de Ribeirão Preto-SP e editada também sob sua orientação, com textos de dez especialistas. Entre eles, nomes de conhecidos como Moacir Sclyar.

Esta pesquisa aponta a poesia entre os cinco gêneros preferidos dos leitores. Considerando-se entre esses gêneros o romance, os livros didáticos, os livros religiosos e a literatura infantil. Também segundo a pesquisa, seis poetas aparecem entre os 25 autores brasileiros mais lidos no país. Vinícius de Morais é o quinto autor na preferência dos brasileiros, somente para se ter uma idéia de uma lista que traz nomes como Monteiro Lobato (o primeiro de todos), Machado de Assis, Ariano Suassuna, Paulo Coelho, Bispo Edir Macedo, Clarice Lispector, etc. Não contabilizo aí o paraibano Ariano Suassuna como poeta, apesar de escrever poemas e ter na sua obra, segundo ele próprio, uma forte vertente poética.

Em recente entrevista ao programa Letra Lúdica, da TV UFPB, falei sobre o livro Retratos da Pesquisa. No entanto, notei que o editor do programa o poeta paraibano José Antônio Assunção, forçava a barra para que eu falasse mais e mais dos números impactantes da poesia na pesquisa. Então, desenvolvemos muito mais uma boa prosa sobre o tema que sobre os desvendamentos da pesquisa enquanto diagnóstico da leitura no país. Observamos, por exemplo, que o jovem é o grande leitor brasileiro. De um modo geral, observa-se também que há uma empatia da juventude para com a poesia. Basta ver o imenso sucesso editorial do Livro da Tribo entre os jovens brasileiros, publicado anualmente pela Editora da Tribo(SP). Poetas como Paulo Leminski, Alice Ruiz e até mesmo Augusto dos Anjos, aparecem nitidamente na preferência da juventude.

Onde quero chegar?


Se algo podemos comemorar nos últimos anos é exatamente a multiplicação de certa “militância” favorável às políticas de leitura. Militância esta que tem sido encontrada tanto no setor público, quanto em iniciativas particulares. Podemos citar entre estas, a de um catador de papel em São Paulo que montou uma biblioteca com mais de 16 mil títulos, num prédio abandonado. Detalhe: os livros foram todos apanhados em lixos residenciais. O projeto Dulcinéia Catadora, também em São Paulo, trabalha oficinas de artes plásticas, leitura e edição, a partir da poesia, principalmente. São inúmeros os exemplos brasileiros que nos levam a acreditar que a poesia é um dos principais vetores para uma política nacional de incentivo à leitura. Uma ação transformadora que não deveria se limitar ao repasse de verbas, mas fundamentalmente, às possibilidades de articulação intersetorial e transversal, principalmente das áreas de educação e cultura.

Isso significa, logicamente, uma ousada transgressão ao que existe hoje em termos de política educacional. Roland Barthes já dizia que a Literatura contém muitos saberes. No entanto, segundo Afrânio Coutinho no Livro Notas de Teoria Literária, “o ensino da Literatura deve emancipar-se da história e da filologia, campos verdadeiramente distintos (…)”. Ele diz também que, “a Literatura vem sendo ensinada por professores, na maioria de português, de mentalidade predominantemente filológica, a Literatura é tornada um subsídio da língua, confundindo-se análise gramatical com análise literária, análise sintática com análise estilística.” O que estamos propondo é uma inversão nessa lógica para que a Literatura desfrute de um espaço próprio, trabalhando muito mais intensamente o que realmente nos interessa: o prazer da leitura. O caráter estruturante das políticas de leitura, seguramente, elevará os níveis de ensino. Afinal, um bom leitor dificilmente será um mau aluno.

Logicamente que temos aqui uma série de vontades íntimas. A maior delas é nos transformarmos em um continente de leitores. Não tenho a menor dúvida que a poesia cumpre, nesse aspecto, um papel introdutório de toda uma política pública para o Livro e a leitura. A boa poesia seduz o leitor para qualquer gênero literário. É muito mais fácil, por exemplo, um leitor de poesia entender obras como Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, ou mesmo Ponto de Mutação, do Fritjot Capra. Pelo imenso grau de popularização da poesia, não estaríamos inventando a roda, mas fazendo-a andar mais rápido, como se diz por aí. Aliás, não podemos esquecer que a roda já está andando. Por exemplo, devemos reconhecer que há uma geração de professores nos cursos de Letras do país inteiro, trabalhando a literatura contemporânea em sala de aula (não apenas poesia). Ainda que predomine o conservadorismo acadêmico. Recentemente ouvi de um amigo que um professor iria fazer sua tese de doutorado sobre a sua poesia e foi desaconselhado por ser o meu amigo, um poeta desconhecido. Portanto, há muito que se avançar ainda em termos de “mudança de hábito”. Mas, as cartas estão na mesa e, não se enganem os incautos, o jogo já começou.