Dona Dida e Babá saem no Bloco dos sujos

Quando eu era menino em Timbaúba dos Mocós, no carnaval a festa era do bloco dos sujos, com fantasias improvisadas, pó, graxa e muito humor escrachado satirizando a política e os costumes locais. O cara que era o exemplo de cidadão o ano todo, no carnaval saía no bloco dos sujos soltando a franga e batendo as asas.

 

Neste carnaval 2012, o bloco de sujo não tem graça nenhuma. Na Paraíba são oitocentos nomes de políticos condenados por brincarem de irmãos metralhas com a grana suada de nossa serena e conformada população. A Lei da Ficha limpa arrancou as máscaras de muita gente que andava emporcalhando a política.

Na cidade de Itabaiana do Norte, onde nasceu e viveu o gari Coceira, o varredor de rua mais preguiçoso e bem humorado do mundo, a lista aponta três nomes: Dona Dida, Babá e Zé Sinval, filho da prefeita. Os três estão no bloco dos  fichas sujas, membros da confraria dos foliões que brincam de enricar com o dinheiro do contribuinte. Para esses, o carnaval de 2012 reservou um lugar nada honroso na galeria dos corruptos oficialmente reconhecidos e carimbados.

Porém, e sempre tem um porém, ninguém se engane: eu e tu, nós e eles estamos no mesmo bloco. Cada um com seu pedacinho de corrupção. Com a diferença de que, nos porões do poder, a coisa acontece em escala muitíssimo maior. Aqui temos uma só política: a do interesse individual.

É como bem diz um compadre meu: “A maioria do povo brasileiro é farinha do mesmo saco de seus políticos corruptos. Seus legítimos representantes jamais poderiam deixar de sê-lo, por uma simples questão de causa e efeito. Quando será que o povo brasileiro vai acordar e reconhecer sua culpa neste cartório? Trata-se de um processo histórico de corrupção profundamente encravado no caráter do povo brasileiro. E quem confirmava isto, há um século atrás, era Rui Barbosa”. De forma que o bloco dos sujos cada vez aumenta mais, semelhante ao cordão dos puxa-sacos.

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Saudades dos nossos artistas populares

Depois que inventaram a moda de cercar o centro da cidade e privatizar a festa da Padroeira, o povo de Itabaiana do Norte tem nostalgia das antigas festas com nossos artistas populares brilhando nos concorridos shows de calouros. Com dificuldades extremas para entender e atender o espírito coletivo de nossa gente, mesmo porque não reside na cidade e não tem maiores vínculos com sua cultura, a alagoana radicada na Paraíba, dona Eurídice, prefeita do lugar, juntou-se ao padre da Freguesia e radicalizou: fechou a praça com muros de ferro e chamou Reginaldo Rossi para realizar show brega.
Meu compadre poeta Edriano Silva, no seu blog “Itabaiana Jovem”, lembra os tempos de ouro da festa de Nossa Senhora da Conceição e o espetáculo de cantores amadores no palco armado em frente à Igreja Matriz. Era o momento de glória dos cantores e cantoras da cidade. A multidão aclamava seus calouros. Não havia a ganância em trazer artistas famosos e cobrar caro para pretensas obras assistenciais. Todo mundo se divertia de graça com os artistas locais, principalmente com um em especial, o cantor Nilson Reis, conhecido como Nilson Tanajura, o mais folclórico, o mais aplaudido, o rei em pequeno grau daquelas noitadas.
Com seus trajes extravagantes, antes de cantar tirava do bolso uma lista enorme de nomes de amigos para quem mandava abraços. Nilson Reis geralmente só cantava uma música do super brega Alípio Martins, seu ídolo maior. O povão ia ao delírio. Depois, Nilson gravou um CD que ele mesmo distribuía com os fãs. Onde passava era uma festa. Ele e tantos outros artistas populares, como os “Arrochados do Forró”, faziam uma festa barata, simples, estilo povão, mas sem essas ostentações imbecilóides do momento/acidente atual.
“Onde está o apoio à nossa cultura e aos nossos talentos, quando poderíamos revelar novos poetas, escritores, cantores e compositores?”, pergunta Edriano.  Sem reconhecimento à nossa cultura, resta-nos viver das lembranças do que passou e nos deixou apenas saudades, constata ele.
O cantor Nilson Reis, esse vive sua vidinha de astro meio apagado, mas sempre tentando voltar ao sucesso. Dizem que Nilson concedeu entrevista ao blog “Força Jovem” onde fala de sua antiga amizade com Bin Laden. Evidente que Nilson sempre delira um pouco, mas quem nunca delirou? Esses doidos me fascinam. Parafraseando outro maluco, o também famoso “Mocidade”: pra ser doido em Itabaiana é preciso ter muito juízo!
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Carta Aberta aos Culturais

Sou um sujeito que joga às claras, sem subterfúgios. Por isso estou publicando essas linhas, invocando o interesse público para explicar que não pode haver sigilo nesses assuntos. Em certas circunstâncias, guardar segredo é o mesmo que prevaricar.

Com a criação da Secretaria da Cultura na Paraíba, sob o comando de Chico César, foi instituída a figura do Articulador Cultural, pessoa responsável pelo diálogo do Estado com os diversos interlocutores da cultura nas regionais de ensino. Esse modelo é novo, mas velhos são os métodos de preenchimento dos cargos. Vale a indicação política. Se bem que as pessoas indicadas têm realmente um histórico de envolvimento com o fazer cultural das regiões, até onde eu sei.

Em Itabaiana, sede da 12ª Regional de Ensino, a história do Articulador Cultural rendeu reuniões dos produtores culturais da cidade, onde se procurou definir um perfil ideal para o futuro ocupante do cargo. No meu blog Toca do Leão, promovi enquete e opinei que os interessados deveriam escolher uma lista tríplice e enviar para a Secretaria de Cultura. Na enquete, destacaram-se os nomes de Antonio Costta, atual subsecretário da cultura em Itabaiana, Edglês Gonçalves e Clévia Paz, os dois últimos ligados ao Ponto de Cultura Cantiga de Ninar, do qual sou coordenador.

Na semana passada, recebi telefonema de minha amiga Alice Monteiro, da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura. Ela é a pessoa que está coordenando o processo de indicação dos Articuladores Culturais da Secretaria Estadual de Cultura. Alice informou que meu nome estava sendo cogitado para o cargo em Itabaiana. Agradeci a deferência, mas disse que não aceitava, porque não resido em Itabaiana e acho que esse cargo deve ser preenchido por alguém que esteja na região o tempo todo.

Na realidade, não aceitei por mais um motivo: na hipótese de assumir cargo público por indicação de alguma liderança política (desconfio que tem o dedo do meu compadre Zé Ramos), eu estaria obrigado a participar de todo e qualquer evento do setor, com os salamaleques costumeiros aos chefes, as bajulações de praxe, a obediência aos ditames da hierarquia, o silêncio diante de erros na política cultural para não enfraquecer o Governo e seus prepostos, o apoio a interesses políticos menores, a obrigação de responder a críticas de companheiros do setor, enfim, a possibilidade de não poder agir de acordo com minha própria determinação e trabalhar dentro de limites impostos pelo cargo. Já sou tido como fundamentalista, carbonário, aquele que é do contra. Gosto mais de atuar como detonador, questionador desses esquemas parasitários e burocráticos. Tem que existir esse elemento, para que nossos compadres artistas ocupantes de cargos públicos não fiquem mais acomodados, dentro daquilo que conceituam como o “mal menor”, que é o pretenso controle da máquina pública em benefício de boas causas, mesmo com todas as limitações conhecidas.

Chamam-me de pirata porque opero rádios livres e comunitárias, mas não ando atrás do ouro. Preciso de grana, sou um cara que vive de aposentadoria irrisória, entretanto simplório a ponto de recusar um emprego público com bom salário, apenas porque considero que não é esse meu papel e não seria importante para ampliar os espaços dos artistas de minha região. Tem gente que sabe fazer isso muito melhor. Da lista tríplice que saiu no blog, indicaria a nomeação de minha comadre Clévia Paz, radialista e coordenadora do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar. Meu compadre Antonio Costta estaria impedido por razões políticas, já que é membro de uma administração que não reza na cartilha do novo governo estadual. Meu amigo Edglês, outro da lista, ainda é imaturo, muito jovem para a construção dessa ponte entre a sociedade civil e a área cultural do Governo.

Ainda bem que a indicação não contemplou um nome sem qualquer referência no meio cultural, como pode ocorrer nessas determinações políticas, algo que infelizmente é factível em um lugar que cultua a ignorância.

Parabéns e sucesso pra minha comadre Clévia.

 

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 A Cheia levou…

Recebi uma cartinha de morador da Rua das Flores, em Itabaiana, reclamando da cheia do riacho que levou quase todas as suas tralhas.  O que não levou, estragou. A cheia apagou o retrato de Antõe carlo sorrindo com aquela cara redonda de menino bem fornido e mal encaminhado, e a foto da mãe Dida, novinha e bonitinha que parece a Rainha da Inglaterra nas suas núpcias com o Príncipe Philip Scotsman , em novembro de 1947.

 A cheia levou o penico de vó Zezé mijar, ficando a velha impossibilitada de depositar seu desagrado com as coisas e suas impressões sobre as pessoas, com grande perigo de perder a vida ao expelir excrementos diretamente no tal riacho, em uma ponte sem proteção.A cheia levou o disco com a música favorita dos filhos de dona Dida que saíam arrastando os pés pelas ruas ao som de uma lambada chinfrim, trilha sonora mais do que idiotizante de outroras passeatas tolas e sem sentido.

 A cheia levou os enfeites dos caboclinhos do mestre Josa, que ficaram muitos anos dentro de caixas em cima do guarda-roupa, esperando que afinal fosse liberada a verba para o carnaval tradição, coisa que jamais aconteceu, pois nunca mais se viu carnaval nessa terra, tirando as palhaçadas e cenas ridículas de vereadores adesistas e oportunistas.

 A cheia estragou o bombo de Zé Ispiciá , Zé Quarenta e Um e Pabulagem tocarem sua ciranda e seu coco-de-roda, que a gente gostava de ouvir, e destruiu os bonecos de Chico do Doce com os vestidinhos das pastoras de Arlinda Verdureira. Nunca mais teremos São João como aqueles.A cheia lavou e apagou impiedosamente todas as fotos dos antigos times União e Vila Nova, para o desespero de Brão, Edílson Andrade e tantos outros desportistas do passado, ficando a cidade sem futebol.

 Destruiu o amor próprio do compatrício e sumiu de vez com a sanfona que foi de Sivuca.

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Nas asas do medo

Luiz Augusto Crispim dizia que quem viaja de avião é um contraventor da lei da gravidade, “a mais grave de todas as legislações quando se voa a mil quilômetros da terra”. Fui convidado a violar essa lei. Provavelmente irei a Brasília no final do ano, para um simpósio de rádios comunitárias.

Estou apreensivo porque fim de ano desenha-se geralmente o caos nos aeroportos. Todo mundo vai viajar, as empresas aéreas vendem mais passagens do que existem vagas nos aviões, a confusão se estabelece. Desde que o pobre passou a ter condições de viajar de avião, o serviço caiu de qualidade. A classe média fica muito irritada, porque eles adoram falar de democracia, mas não gostam de se misturar com o zé povinho. Democracia continua sendo uma utopia, palavra grega que significa “um lugar que não existe”. Já eu digo com Jorge Luis Borges: “A riqueza é a forma mais incômoda da vulgaridade”.

Mas o problema é o avião e seus aeroportos. Confesso que não me agrada voar. É preciso ter a alma muito no lugar para enfrentar esses perigos. E eu nem sei se tenho alma. Ignoro também se o avião fez a inspeção de rotina, se o piloto está num dia bom, se a pista vai estar livre, se os empregados aeroviários não irão começar a greve tartaruga, enfim são tantos condicionantes que me prendem ao chão!

Leio que cerca de 40% dos brasileiros têm medo de voar. Há pessoas que, só de pensar em voar de avião são invadidas por uma ansiedade imensa e por pensamentos recorrentes que causam muito mal-estar. Outras nem sequer conseguem se imaginar entrando em uma aeronave. Meio pânico é intermediário. Consigo embarcar, mas não durmo nem tenho sossego enquanto o “asa dura” está no ar.

Segundo as estatísticas, o avião é o mais seguro meio de transporte que o homem já inventou. Seria preciso viajar todos os dias, durante 712 anos, para que alguém se envolvesse com certeza em um acidente aéreo. O normal é tudo dar certo. O problema é que, na minha cabeça, viajar de avião é uma experiência excepcional, como uma viagem ao fim do mundo, ao último pedaço de matéria do universo. Uma aventura imprevisível sob todos os aspectos.

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Mais de dez dias sem caminhar, bursite no ombro direito, tomando antinflamatório por conta própria, fui ao médico e ele me deu uma injeção local.

Tou desanimado. O livro não sai do canto na gráfica, o lançamento gorou, doença por toda parte, lamentos e gemidos de dor, parece o purgatório de Dante, que no inferno ainda não adentrei, como diz o chavão dos locutores de pista.

Falar em locutor, tenho que gravar um programa de rádio do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar que estréia dia 29 de maio. Falta estúdio, equipamentos de gravação de áudio digital e disposição para correr atrás da pauta.

A concepção do purgatório como uma montanha é idéia de Dante, esse poeta tão imaginativo. O inferno sempre foi associado com o mundo subterrâneo e o Céu sempre foi visto como a morada dos deuses e dos por eles escolhidos. Se estou no purgatório, tenho que subir uma montanha imensa, com dores no joelho e ombro bichado. As portas do inferno estão sempre abertas, o caminho é fácil, aparecem até umas moças caridosas para ensinar o trajeto.

Domingo, dia 23 de maio,o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar vai receber o Vladimir Carvalho, monstro sagrado do filme documentário. Palestra e exibição de filme do Vladimir, além de tocata com o grupo de violões dos alunos do Ponto. Não estarei lá. A saúde faz seu chamado de alerta. Talvez não interesse a todos saber, mas como eu sempre faço questão de dividir minhas alegrias com meus queridos amigos e leitores, também me sinto compelido a dividir momentos não tão alegres.

C’est la vie!

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HOJE É DIA DO GARI

16/05

Dia 16 de maio é o dia do gari, e no 21 de outubro comemora-se o dia do lixeiro. Oxente, e não é tudo a mesma coisa não? “O mais baixo na escala de trabalho”, segundo o boca de tabaco Boris Casoy, é na realidade o gari ou o lixeiro?

O psicólogo formado pela Universidade de São Paulo Fernando Braga da Costa, 27 anos, tornou-se figura notória na mídia, ao assumir a vassoura de gari por oito anos, “para estudar a vida desses trabalhadores”.

A profissão mais rejeitada pelas pessoas é a de gari. Meu pai dizia: “se não estudar, vai acabar varrendo a rua”. Dizem: “fulano não serve nem pra ser lixeiro”. Conheci um gari em minha cidade cujo nome era “Coceira”. Cidadão conversador e super preguiçoso, “Coceira” mantinha sua vassoura novinha em folha por falta de uso. Não me lembro quem foi meu primeiro professor, mas recordo do velho “Coceira” escorado na sua vassoura, conversando com todo mundo. Notabilizou-se pela preguiça e bom humor.

“Esses trabalhadores merecem nosso respeito”, discursam prefeitos corruptos. Mas pagam uma miséria, quando pagam, e deixam os pobres lixeiros serem comidos por todo tipo de doenças por falta de equipamentos de proteção. Bem fazia “Coceira”: mandava todo mundo se lascar, passava o dia fumando seu cigarrinho e rindo da humanidade. Como era uma figura popular e querida por todos, o fuleiro do prefeito não o mandava embora.

Com certeza não é só Boris Casoy que tem preconceito contra lixeiros. Imaginem o que muitas pessoas “famosas e importantes” deste país dizem e pensam  dos mais humildes. O jornalista-canalha-patife-vagabundo-descarado-salafrário-cínico-hipócrita-nazista Borys é representante de classe daquela madame de imundo caráter que lava as mãos com álcool depois de apertar as mãos dos seus humildes eleitores.

Em concurso público para gari em São Paulo, até engenheiro fez as provas. O desemprego nivela todo mundo. No dia do gari, pense que gari não é lixo. Não sou dono da verdade, antes quero que ela seja minha dona. Mas gostaria de ter um encaminhamento para o problema do saneamento público. Onde jogar tanto lixo humano? Como descartar um sistema que nivela homens e detritos?

“O interrogatório é muito fácil de fazer, pega o favelado e dá porrada até doer. O interrogatório é muito fácil de acabar, pega o negão e dá porrada até matar. Esse sangue é muito bom, já provei, não tem perigo, é melhor do que café, é o sangue do inimigo”. Esse é um dos cantos preferidos dos soldados do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro para incursões em favelas e comunidades pobres onde moram os garis e lixeiros. Esse lixo sistêmico não tem jeito de limpar.

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1º DE MAIO E ALIENAÇÃO

Com o pretexto de assinalar o dia do trabalho, quero aqui denunciar a exploração a que são submetidas as pessoas adeptas dessas igrejas “de resultado”, seitas alienantes que fazem uma lavagem celebral no sujeito e o obrigam a trabalhar de graça, sob pressão psicológica e tortura mental.

As vítimas são geralmente depressivas e de baixo nível intelectual e social. São obrigados a trabalhar nas igrejas “pela obra do Senhor”. Esses pobres terminam por serem excluídos do convívio social e até da família. Muitos apresentam problemas psicológicos sérios.

Os tais pastores, missionários, bispos et caterva não pagam impostos e ganham muito dinheiro fanatizando a população carente. Será que o Ministério do Trabalho fiscaliza esses ambientes “santos”? Onde abrem um templo de fanáticos seguidores da doutrina neopentecostal, desaparece o passado cultural da comunidade convertida.

No Brasil, as pessoas adoram viver em ilusão, taí o sucesso das novelas. Tudo bem que se venda ilusão, com as facilidades legais que existem, mas exploração da força de trabalho é outra coisa. Deveria ser combatido.

Quanto ao 1º de Maio propriamente dito, lembro aqui uma frase do Luiz Marinho, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, de onde saiu Lula: “A Força Sindical é correia de transmissão do governo Fernando Henrique”. Isso ele disse em 2001. E agora, a CUT é o que mesmo?

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Tenente Lucena, o general do folclore

15/03

Sou um apaixonado admirador das personalidades que têm seus nomes destacados nas artes e ciências, na cultura e na política de minha terra, a centenária Itabaiana, sobretudo os que dedicaram suas vidas na defesa da dignidade das pessoas. É impressionante como Itabaiana deu ao mundo figuras tão invulgares, homens de espírito engrandecido e inteligências notáveis.

Um deles chama-se João Emídio de Lucena, que ficou conhecido como Tenente Lucena. Acabei de ler sua biografia, escrita pelo filho Piragibe de Lucena em edição do autor, de março de 1986. O menino que nasceu em seis de abril de 1912, um dia de sábado, na vilazinha de Campo Grande, tornou-se um dos maiores folcloristas do Brasil. Predestinado e obstinado, o garoto trilhou uma vida de amor pela cultura do seu povo, com tal sentimento de bondade e benevolência que transformou-se em ideal, perpetuando-se no mundo por lutar pelo bem e inspirar a juventude a estudar e se dedicar às tradições populares.

O livro de Piragibe informa que Tenente Lucena, como ficou conhecido, era filho de Josias e Eulária. Era primo segundo do grande sanfoneiro Sivuca. Em 1918, a família foi morar em São João do Sabugi, Rio Grande do Norte. Em 1928, João Emídio de Lucena entrou para a banda de música local, tocando corneta, depois piston e trombone. Em 1933, sentou praça como soldado voluntário no 22º Batalhão de Caçadores, passando a ser soldado músico de terceira classe. A partir daí, cresceu como músico, adotando para sua vida o ideal de servir ao próximo, notadamente às crianças. Fundou corais infantis e abrigos de menores carentes. Foi sócio fundador da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Em 1957, foi transferido para a reserva do Exército no posto de segundo tenente. Foi um dos maiores folcloristas do Brasil, autêntico representante da cultura popular paraibana e nordestina. Hoje é nome de escolas, ruas e conjuntos folclóricos da Paraíba e Rio Grande do Norte.

Com seu grupo “Terra Seca”, preservou as tradições, usos e artes do povo nordestino, pesquisou e recriou danças populares, em valiosa contribuição ao folclore. Como humanista, despendeu todos os esforços para recobrar a auto-estima e dar dignidade aos párias, prostitutas, meninos abandonados e outros viventes à margem do meio social.

Faleceu em João Pessoa no dia 09 de julho de 1985. Itabaiana, sua terra natal, deveria reverenciar mais sua memória. Um homem que se dedicou à arte e à cultura, inclusive ao cinema. Fo ator nos filmes paraibanos “O salário da morte”, “Bagaceira”, “Fogo Morto” e “A Canga”. O dramaturgo José Bezerra Filho assim se referiu ao grande itabaianense: “Não acredito em vida após a morte, mas tenho a impressão de que tanta bondade, tanta fortaleza juntas não devem ter se acabado assim, sem mais nem menos. Pra mim Tenente Lucena está por lá nos outros mundos, dançando o Camaleão com os anjos, ensinando aos povos daquelas paragens as cantigas de roda que cantava com as crianças, ele também criança no espírito, quando estava do lado de cá”.

Três, sem tirar de dentro

15/02

A cantora baiana Daniela Mercury disse em entrevista na TV que no carnaval fazia sexo três vezes por dia. Com mais de 50 anos de idade, Daniela mostra que está no fio. Meu compadre José Virgulino, sujeito experiente nessas coisas de alcova, analisa a fala da moça e conclui que: mesmo um cabra novo não aguenta esse rojão, configurando-se, portanto, promiscuidade da cantora; mulher nenhuma, normal, seria capaz de gozar tantas vezes num dia, o que significa que ela simplesmente abre o compasso e deixa entrar o bloco, enquanto fica pensando na folia; pulando em trio elétrico na quentura da Bahia, “é duvidoso que tenha condições físicas de fazer o que diz”. Três relações por dia, nos sete dias de carnaval, dão 21 atos sexuais.

Virgulino termina por censurar a confissão pública da cantora, “que é uma artista de massa e isso não é um bom exemplo para a juventude”. Metendo (epa!) minha colher nesse angu, acho que Daniela Mercury incentiva a prática da mais vital atividade física humana. Faz bem para a saúde, incluindo a mental. Se todo mundo tratasse de fazer seu sexozinho todo dia, o mundo seria bem melhor. Sexo mantém a beleza da mulher. Quer medicamento mais saudável e gostoso do que esse?

Até os compadres da terceira idade sabem que sexo é beleza para o coração, e sem ereção pode ser feito com paixão e emoção, criatividade e tesão. Pra ficar na rima fácil. Um camarada que parece não gostar muito da fruta andou espalhando que sexo pode acabar com a próstata do homem e machucar muito a mulher por dentro. Na qualidade de consultor sexual, devo dizer que isso é lenda, criada por quem não gosta do ato e fica fazendo corpo mole (epa!). Incentivar a prática sexual, acho que é legal. Trágico seria se Daniela confessasse que passava o carnaval à base de narcóticos ou outras drogas mais em moda. Adrenalina por via sexual é o bicho, não faz mal e dá disposição ao atleta. Jogadores de futebol da seleção da Itália são liberados para fazer sexo na noite anterior às partidas.

Um tal de Adolfo Hitler tinha problemas de ereção e traumas sexuais. Mandou tocar fogo no mundo para relaxar, por falta de uma trepadinha. O Rei Luiz XIII casou-se com a infanta Ana D’Áustria, os dois com apenas 14 anos. Depois da cerimônia, foram para a alcova com um médico, um marquês, roupeiros, o camareiro levando a espada do Rei e duas amas para servirem de testemunhas. Diante dessa platéia, o jovem noivo deu uma brochada tão espetacular que nunca mais se recuperou do trauma. Em compensação, passou a usar sua espada, a de aço, para infernizar a vida dos súditos.

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O carnaval de Geraldo Caranguejo

Neste carnaval, vai uma postagem de 2009, enquanto rola o frevo:

No clima carnavalesco, desentranho memórias de antigos carnavais itabaianenses. Era um quinteto formado por Fábio Mozart, Geraldo Caranguejo, Sanderli, Roberto Palhano e Joacir Avelino, integrantes da jocosa comédia humana que é o tal do tríduo momesco, no tempo em que carnaval era galhofa, birita e alegria mais ou menos inocente, diferente de hoje quando essa festa transformou-se em esquemas mercenários dominados por grotescos bandos de jovens vestidos com um tal de abadá e correndo atrás de trios elétricos martelando músicas infames como trilhas de máquinas de fazer dinheiro. Acho o carnaval hoje uma coisa idiota.

Mas os meus carnavais de antanho (que palavra!) eram carnavais! Lembro que não se tinha fantasia, então recorríamos ao guarda-roupa do Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana (GETI). Um ano saímos eu de cangaceiro, Sanderli vestido de diabo, Joacir com roupa de bobo da corte e Geraldo Caranguejo vestido com uma batina de padre.

Breve parêntese para as apresentações: Roberto Palhano ainda toma “pau dentro” na barraca de Zezão, no Geisel, Sanderli hoje é crente de Jesus, Joacir paga seus pecados correndo atrás de bandidos no sertão de Alagoas, eu continuo anarquista e Geraldo Caranguejo é o que sempre foi: um cara arretado, maravilhoso ser humano que veio ao mundo para se divertir e alegrar os semelhantes. Geraldo já era o próprio carnaval nos dias comuns, imagine! Espirituoso, teatral, piadista, nunca se viu o cara com raiva ou triste. Era a encarnação do riso popular, alegre e festivo, malicioso e ingênuo. Geraldo realizava sempre o milagre de mostrar o que realmente somos: ridículos coletivos. A humanidade é um bando de palhaços que querem ser levados a sério. Geraldo apontava o dedo e dizia: o rei está nu!

Eu disse era, mas corrijo: ele ainda é tudo o que eu afirmei, pois continua vivo. Deixou de beber por causa do fígado um tanto avariado, mas a verve continua a mesma. Sua rica e comunicativa passagem por nossas vidas se deu porque foi meu camarada de trabalho na rede ferroviária e parceiro em muitas noitadas de cantoria de viola na beira da linha nas vésperas da feira de Itabaiana e em muitos carnavais.

Nesse carnaval em que saiu de padre, Geraldo resolveu visitar as putas dos cabarés da Rua Treze de Maio, o famoso Carretel. Chegou abençoando as meninas. Terminava dizendo: “que Deus a tenha e o diabo a carregue”… Rezava uma reza doida, rimando fé com Maomé e aleluia com farinha na cuia. As meninas, matutinhas ingênuas, pensavam que o cara era mesmo padre. Na quarta-feira de cinzas, chegou na igreja um grupo de raparigas procurando um tal de Padre Geraldo Caranguejo, que inventou um jeito novo de comungar, substituindo a hóstia por tira-gosto de caju e o vinho por cachaça “Pitu”. Dizia que era a adaptação cultural da religião conforme os costumes nordestinos.

Só uma vez testemunhei Geraldo chorando. Foi num carnaval. Fim de festa, dia amanhecendo, todos sujos de talco, graxa e lama, lisos e entrando naquele túnel terrível que anuncia a depressão da ressaca. Um mendigo pedia esmolas na calçada da igreja. Geraldo parou e colocou seu chapeuzinho de bobo de uma corte sem rei na cabeça do velhinho, que sorriu com sua boca sem dentes, agradecendo. O antes alegre folião Geraldo Caranguejo parou um instante diante do velho e começou a chorar, muito digno.

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Sivuca Cultural Café

09/02

Uma rara turista visitou Itabaiana e foi conhecer o “Sivuca Cultural Café” na Praça Epitácio Pessoa. Seu depoimento: “o local é bonitinho, arrumadinho, limpinho, mas o cardápio… O cardápio é até legal, mas cadê que tem as coisas para servir aos fregueses? Os sanduíches naturais estão no cardápio, mas não tinha para servir. Capuccino? Também não, pois a máquina estava quebrada. Só tinha mesmo café expresso. Quando cheguei, a música ambiente, muito alta, era de hinos católicos. A primeira coisa que fiz foi questionar o garçom sobre isso, pois um local daquele não pode tocar música que tenha a ver com essa ou aquela religião e que deveria mesmo era tocar as músicas de Sivuca. Acho que ele falou com a gerente/dona e ela trocou por MPB”.

Por aí se vê que não estamos preparados para receber turistas, se algum dia viermos a explorar nossas atrações turísticas e culturais. Mas não é privilégio de Itabaiana. Em João Pessoa os bares e botecos também não sabem receber os visitantes. Em um restaurante, o freguês pediu sopa. O garçom chegou com um dedo dentro do prato.

– Tire o dedo da minha sopa! – reclamou o cara.
– É que essa quentura é bom pro meu panarício – alegou o garçom.

Em Itabaiana, a mulher de Otto Cavalcanti, pintor conterrâneo muito famoso na Europa, procurou por um mapa ou guia da cidade. Não encontrou nada parecido. Na sua terra, a Espanha, toda cidadezinha tem pessoas encarregadas de mostrar os museus, monumentos históricos, lugares e demais informações. E tem o guia impresso da cidade, prestando esclarecimentos sobre a província. Está na hora do meu confrade Antonio Costta providenciar a publicação de um guia de Itabaiana, ele que agora assumiu a função de Subsecretário de Cultura, Lazer e Turismo do Município.

O dono do “Sivuca Cultural Café%E