Tenente Siqueira Campos

Como prometido, periodicamente apresentaremos a história de uma das ruas de Cabedelo. Apesar da escassez de tempo, temos abdicado de algumas horas do nosso precioso descanso para prazerosamente cumprir o prometido. Apesar do esforço, nos esbarramos quase sempre com a dificuldade de obtermos informações a respeito de que ano e quem batizou a rua com o nome atual. Julgamos que esta dificuldade certamente se deve a falta de registro, o registro da nossa memória.

Para muitos, pode parecer bobagem, mas manter viva a história de uma cidade significa resgatar e preservar a tradição daqueles que contribuíram para que chegássemos ao ponto em que nos encontramos. Trata-se de uma oportunidade única para compreender, inclusive, a nossa própria identidade. Vamos lá então. Hoje falaremos sobre Siqueira Campos, nome dado à rua que se inicia onde ficava a antiga Igreja Evangélica Assembleia de Deus, ligando-se à rua Nila Rocha e terminando ao se encontrar com a Rua Juscelino Kubitschek.

Antonio de Siqueira Campos nasceu na cidade Rio Claro, nas Minas Gerais em 18 de maio de 1898. Atuou como militar e político brasileiro. Participou do movimento tenentista e da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, em julho de 1922. Foi um dos militares que marcharam na Avenida Atlântica, na orla marítima de Copacabana, em direção a cerca de 3.000 soldados legalistas e que, após intenso tiroteio em um combate totalmente desigual (18 revoltosos contra 3000 soldados do governo), acabaram sendo derrotados em frente à Rua Barroso, na altura do Posto 3 de Copacabana. A maioria morreu, sobreviveram apenas os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes e alguns praças.

Foto: Revolta dos 18 do Forte de Copacabana / Da esquerda para direita: tenentes Eduardo Gomes, Siqueira Campos, Newton Prado e o civil Otávio Correia.

Siqueira Campos comungava com as mesmas revoltas do tenente Cleto Campelo e isso o levou a participar da Revolta do Forte de Copacabana também chamado de Movimento Tenentista,   qual visava romper os vícios da política brasileira da época, em que grupos elitistas se perpetuavam no poder. Após período de exílio, o tenente Siqueira Campos participou ativamente, como um dos seus principais líderes, da famosa Coluna Prestes-Miguel Costa. Durante mais de três anos a Coluna percorreu o interior do Brasil do Sul ao Nordeste no prosseguimento da luta para derrubar a República Velha, que viria a cair em outubro de 1930 com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder.

 

Morte no Rio da Prata

O tenente Siqueira Campos morreu em um acidente aéreo, ao retornar do Uruguai para o Brasil em 10 de maio de 1930, antes da Revolução que levaria Vargas ao poder, quando a aeronave em que estava caiu no rio da Prata.

O também revolucionário tenentista João Alberto Lins de Barros viajava no mesmo avião com Siqueira Campos e, em sua obra Memórias de um Revolucionário (p.227-229), relatou como se deu o acidente com o Laté 28:

“(…) dentro do Laté 28, apinhavam-se cinco passageiros: o piloto, Comandante Negrin, veterano da guerra e reconhecido ás da aviação francesa. O Sr. Pranville, diretor da Latecoere para a América do Sul; o telegrafista, o Siqueira e eu. Os dois primeiros viajavam no comando do aparelho e o resto na cabine. Valentim Bouças, em tempo desistia da viagem.

Apesar do risco que corríamos, sentimos alívio quando o avião tomou altura. Queríamos chegar aos nossos destinos de qualquer maneira, o mais rapidamente possível. Não tínhamos nem um minuto a perder e no momento, a questão de segurança pessoal afigurava-se nos secundária.

Tirei os sapatos, levantei a gola do sobretudo, sentando-me na primeira cadeira do lado esquerdo. Fazia um frio penetrante. Fatigado dos trabalhos diurnos, rapidamente adormeci.

Despertei com um golpe na cabeça.

O avião boiava na água, agitando pelas ondas que contra ele se quebravam. Nós três – os da cabine – caíramos com as cadeiras, em confusão. Eu estava ferido na testa, na face esquerda e no nariz. Siqueira, o primeiro a recuperar os sentidos, arrastou-se para uma porta lateral, abrindo-a com algum trabalho. Aí a água entrou, alagando o compartimento em que nos encontrávamos, até atingir os nossos joelhos. Ele pulou fora, ficou sobre o teto da cabine e içou, com a minha ajuda, o telegrafista, já ao meu lado nesse momento. Logo após, eu me reunia também aos dois. Em cima daquele pequeno avião que, sacudido pelas ondas, afundava lentamente, estávamos os cinco passageiros do malfadado Laté 28, agarrando-nos uns aos outros, a fim de não sermos precipitados na água. Fomos tirando a roupa para poder nadar.

Um vento frio de inverno fazia-nos tremer. Densa e baixa, a cerração permitia-nos apenas lobrigar, na linha do horizonte, as luzes de uma cidade.

O motor do avião começou a desaparecer. Procuramos, instintivamente, equilibrarmo-nos em sua calda. Ninguém tomava a iniciativa de abandonar o aparelho. Nada menos de três quilômetros de mar banzeiro nos separava da costa. Uma dura etapa a vencer durante a noite, com aquele frio áspero, cortante.

O piloto Negrin, talvez levado pela responsabilidade de Comandante do aparelho, que submergia, avisou-nos de que era preciso lançarmo-nos à água. Era um homem da nossa idade, demonstrando parecença física com o Siqueira. Como nós três, estava apenas com as roupas debaixo. E, tomando a iniciativa, para dar exemplo, atirou-se à água. Seguiu-o o Sr. Pranvile, tipo de burguês francês, baixo, forte, um pouco calvo.

O telegrafista e eu permanecemos ainda no avião, agarrados ao leme do aparelho. Siqueira, vendo-me banhado em sangue, olhava-me com expressão singular. Apesar de atordoado, sentia que ele ainda não se jogara na água por minha causa. Doía-lhe deixar-me sozinho. Era preciso ganhar coragem e enfrentar a realidade, arremessando-me e tentando alcançar a costa. Precedeu-me, porém, na decisão, o telegrafista. Seguira os nossos movimentos e despira, como nós, a roupa de cima. Saltou na água e estoicamente, deixando um último adeus em espanhol, que era também uma confissão: ‘Eu não sei nadar, Vou morrer. Adeus companheiros!’. E começou a bater-se com as ondas ali, do nosso lado. Veio à tona três ou quatro vezes, sem pedir socorro. Depois desapareceu. (…) Mal havia recuperado a calma (talvez decorrido uns dez minutos de nado), ouvi, perto de mim, o grito angustiante do Siqueira. ‘Espera, João.’ Voltei-me ainda em tempo de o ver, a um metro de mim, ser tragado por uma onda. Desapareceu sem estender um braço para pedir auxílio. Apenas, na face, aquela expressão de energia indômita que eu conhecia tão bem nos momentos de luta, desfigurando agora por uma intensa expressão de dor. Esperei um instante, afastando-me somente depois que percebi que ele não retornaria (…) jamais poderia eu supor, naquele momento, que o vitimara um ataque de angina, conforme foi constatado, mais tarde, pela autópsia”.

Anos depois da sua morte, Siqueira Campos recebeu várias homenagens, a exemplo da  Rua Barroso, onde ocorreu o confronto final da Revolta dos 18 do Forte, foi rebatizada com o nome de Rua Siqueira Campos, como é conhecida atualmente. Na esquina desta Rua com a Avenida Atlântica, foi erigida uma enorme estátua representando o Tenente Siqueira Campos no momento em que recebeu o tiro que o derrotou no confronto.

O Metrô carioca também homenageou o tenente, dando à estação do Posto 3 de Copacabana o nome de Estação Siqueira Campos.

Na capital de São Paulo, seu nome batiza o Parque Tenente Siqueira Campos, mais conhecido como “Parque Trianon” ou “Parque do Trianon”. Também o nome de Siqueira Campos foi dado a chamada Praça do Relógio, construída em 1930, localizada no município de Belém do Pará, Brasil. Consiste de quatro luminárias em um relógio central importado da Inglaterra à época de sua construção.

Apesar de pesquisarmos, não conseguimos a informação de quem e por qual motivo uma das mais importantes ruas da cidade de Cabedelo recebeu o nome Rua Siqueira Campos, coincidentemente, próxima à rua que leva o nome de outro revolucionário, tenente Cleto Campelo.

Siqueira campos costumava dizer: Dizia ele: “À Pátria tudo se deve dar, sem nada exigir em troca, nem mesmo compreensão”.

 

Fonte: wikipedia.org; darozhistoriamilitar.blogspot.com
Livro   Memórias de um Revolucionário (p.227-229) – de João Alberto Lins de Barros.